Personal review
White Nights
Fyodor Dostoevsky
O livro apresenta um protagonista - que representa uma persona - chamado O sonhador.
Com este protagonista, o autor brinca com a dualidade entre o sonhar e imaginar, de um lado, e o viver e sentir de forma genuína a experiência da vida do outro. Este dilema tocou a mim de forma profunda - e acredito que toque qualquer pessoa - pois, frequentemente, estive na posição do sonhador, sabotando minha felicidade e realização presente em favor de uma hipotética realidade, por muitas vezes, inalcançável.
Quando este protagonista, após anos de solidão em sua interessantíssima e própria realidade interna, onde dialoga com a encantadora São Petesburgo do século XIX, acaba encontrando uma mulher chamada Nastienka, tudo muda em sua vida. Apesar de Nastienka também ser solitária e apegada numa, também hipotética, realidade, ela consegue trazer o personagem para uma real paixão num real contato humano.
Durante quatro longas noites brancas, os personagens se conhecem e compartilham de forma profunda suas tristes histórias recheadas de expectativa e frustração em choque com a realidade atual.
O sonhador passou uma vida inteira sozinho ao mesmo tempo que era capaz de imaginar infinitas possibilidades. Natienka espera por um passado amor, com quem combinou um reencontro naquela noite. Por algum motivo ambos pareciam estar apaixonados.
Tudo muda quando, ao final do livro, após ambos declararem seus sentimentos e decidirem que ficariam juntos, o antigo amor de Nastienka retorna ao encontro da amada, que o aceita imediatamente, deixando o sonhador, literalmente, de mãos abanando.
Após receber uma carta de Nastienka, o sonhador se vê frustado e desejando o mal para sua, até então, amada. Porém, durante o mesmo fluxo de pensamento, ele se arrepende, fica feliz e deseja toda a felicidade para Nastienka, então pensa em toda felicidade que sentiu naquelas 4 noites. O livro acaba com uma frase de arrepiar:
“Meu Deus! Um minuto de inteiro de felicidade! Acaso isso é pouco, mesmo para uma vida humana inteira?…” Fiódor Dostoiévski
Acredito que esta frase valha pelo livro inteiro. Até que ponto devemos nos apegar apenas em momentos onde nossos sonhos, por fim, se realizam e sentimos uma genuína felicidade. Será que não vale mais uma vida vivida em todos os seus momentos, sejam eles felizes e tristes mas, sobretudo, reais?
E se ao invés de imaginar uma relação com o atendente da loja, o sonhador tivesse, de fato, falado com ele?
E se o protagonista tivesse se declarado mais cedo?
Até que ponto devemos permitir que os sonhos sufoquem nosso desfrutar da realidade?